terça-feira, 19 de julho de 2016

Saudades



 Saudades

(à minha esposa e filhos)

É muito boa a terra da Bahia,
É lindo o panorama, é boa a gente,
Tudo me agrada, mas não sai da mente
Dos meus esta lembrança, noite e dia.

É belo tudo o que vejo na frente,
Nos céus, no mar, nas ruas da Bahia,
Mas no meu riso, ao ver, ninguém diria
Que n'alma estou sofrendo dor pungente.

Da esposa e dos filhinhos não me esqueço,
Nas águas da saudade já pereço,
Desejo voltar logo ao meu rincão.

Aqui distante vou de minha terra,
Sofro estas dores que o meu peito encerra,
Pulsando de saudade o coração.

Bahia, 7-9-1950

José Siebra



sexta-feira, 8 de julho de 2016

Terezinha

Terezinha
 
(música do frevo... )

Nós sabemos, Terezinha
Que em Salgueiro vai pular,
Pois então a sua mão
Nós queremos apertar.

Muito gratos lhe ficamos
Por sua boa brincadeira
Que tanto nos alegrou
Durante a viagem inteira.

E por esta gratidão
Perdoamos a você
Ter comido na Bahia
Com azeite de dendê.

Pernambuco, 11/9/1950
 José Siebra

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Não chore companheira!


(Adaptação da música "Jardineira", de Orlando Silva)

Oh, companheira, por que estás tão triste,
Mas o que foi que te aconteceu?
Foi a Bahia que ficou bem longe
E lá no horizonte desapareceu.

Oh companheira, não chores não.
Não fiques triste que ficamos na Bahia
E a Bahia vem conosco
Bem dentro do coração.

José Siebra

Bahia, 10/9/1950


terça-feira, 28 de junho de 2016

Por que tanto prego agora?

Por que tanto prego agora? 
(adaptação da música "Juazeiro", de Luiz Gonzaga)

I

Seu Demar, Seu Demar
Nos responda, por favor,
Por que tanto prego agora,
Na volta de Salvador?

Ai Seu Demar, 
Por que não houve no dia,
Ai Seu Demar,
Da saída da Bahia!...

II

Diga-nos qual o motivo
De uma baiana feiticeira
Desejar que o professor
Perdesse também a feira

III
 
Pode ter sido também 
Um feiticeiro novato
Que perdeu o prego
Na saída para o Crato.

Bahia 11/9/1950
José Siebra
 


 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Soneto: O Cruzeiro

O Cruzeiro

Dedicado ao Pe. Juvenal

Filhos meus que, de braços levantados
Com vossos instrumentos de pedreiro,
Fizestes em pedaços meu cruzeiro
Feristes-me também ó desalmados.

Da rocha esculturada mensageiro
Aos pósteros dos seus antepassados,
Vasta herança de tempos tão honrados
Viu chegar o seu dia derradeiro.

A vós que cancelastes tão sagrados
Esforços dos meus filhos já passados,
Em no solo tombando o meu cruzeiro.

Eu desafio, ó braços afamados,
Tirai do céu também este luzeiro
Que brilha sobre o povo brasileiro.

José Siebra, data desconhecida  

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Soneto: Minha estrela!



Minha Estrela


És a Vênus da minha mocidade,
A minha estrela d'alva, em céus risonhos,
A deusa do Olimpo de meus sonhos,
De todas, a mais bela divindade.

E quando se avançar a nossa idade,
De alegres tempos, tempos bem tristonhos,
Dos tempos da velhice, então, medonhos,
Serás a minha Vésper da Saudade.

P'ra mim, quando chegar a noite escura
E o meu corpo dormir na sepultura,
Ali tu regarás uma oração.

Rosa branca verás desabrochada,
Será a minha alma, Aliete, ó esposa amada,
Ao luar do teu amável coração.


Crato, 08/12/1950

José Siebra

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Almas Heroicas





José Siebra de Oliveira, outubro de 1964. Publicado no Periódico da AABB Crato, Ano IX, número 20.

No extenso e plano baixio, entre montanhas adjacentes, os cachos dourados do arrozal valsavam ao vento fresco da manhã.

De faquinhas afiadas, um adjunto de trinta carrascos ia degolando, sem piedade, as lindas dançarinas que, com suas verdes folhas farfalhantes, executavam a mais bela sonata.

Recostado a uma troncuda e frondosa cajazeira, o proprietário, sr. Jorge Lima, observava o trabalho, enlevado pelo pensamento no lucro.

Um par de alegres e inocentes crianças corria entre as touceiras decepadas, enriquecendo, com a mais expressiva tonalidade, tão empolgante quadro.

Em seus revoluteados, exibiam suas cabecinhas apenas, contrastando-se os ebâneos cabelos de Marquinho com os louros de Rosita.

Parente da genitora da amiguinha, morava ali com seu pai, graças à bondade da esposa de Jorge Lima.

Por trás da árvore amiga, a meiga voz de Rosita quebrou o êxtase do pai que não via, com bons olhos, aquela amizade, cada dia mais consolidada entre ela e seu paupérrimo amigo.

"Marquinho! Olha aqueles pintassilgos tecendo o seu ninho. Como é linda a vida dos pássaros! Isto parece o paraíso terrestre. Faltam-me maçãs para te dar."

O sr. Jorge não podia compreender a intenção pura da filha. Sua maldade avolumou-se e, com brusca atitude, ordenou que o menino se retirasse, exigindo, em seguida, a saída de seu pai da propriedade.

Dias depois, da soleira da porta de sua casa, ela viu a pobre família desaparecer na curva do caminho.

Marquinho voltou a cabeça em despedida, levando a alma cheia daquela terra, dos seus campos, dos passarinhos, das noites de lua e, mais que tudo, da menina que o cativara.

Rosita chorou sozinha.

Três anos passaram-se.
Do município de Várzea-Alegre, onde residiam, Rosita e seus genitores dirigiram-se ao Crato, em viagem de passeio.

Era um dia de domingo.

Saía ela da exibição matinal de um grande circo.

Fora, sentado em tosco banquinho, um pobre cego pedia esmolas. Ao seu lado, um garotinho de dez anos olhava, com santa inveja, a meninada feliz que se comprimia na saída do circo, derramando-se pela rua abaixo.

"Mamãe, dá-me vinte cruzeiros para aquele ceguinho."

A mulher atendeu à filha.

Estendendo a mãozinha, os olhos de Rosita cruzaram com os olhinhos vivos do pequeno.

"Marquinho!"

"Rosita!"

Duas palavras apenas... um só instante...

A mão de Jorge Lima segurou a de Rosita e sumiram-se na multidão. Ela olhou para trás cheia de compaixão. Sua mãe, somente, sentiu e entendeu aquela cena.

Foram-se os dias, os meses e os anos.

Morreu o pai de Rosita e também o de Marquinho.

O silêncio se fez, cada ano, mais profundo entre aquelas almas distantes.

Onde estará Rosita?

Onde andará Marquinho?

Eram interrogações feitas aos céus, ao vento, aos pássaros.

Seus pensamentos e olhares encontravam-se nas estrelas, abraçavam-se nas dobras das nuvens e bailavam nos espaços.

Do pai Rosita herdara grande fortuna. Filha única, nova e cheia de encantos, dedicou-se à educação das crianças, indo, em companhia de sua mãe, para Fortaleza, onde instalou um colégio.

Em seus passeios, nas igrejas, nos cinemas, nos ônibus, trens e aviões, seus olhos, inconformados, buscavam, em vão, os olhos de Marcos.

Como seria possível encontrar, evoluído e em tais circunstâncias, o filho de um indigente?

Dele jamais falara sua mãe.

Certa manhã, uma de suas internas, menina pobre, fraturou o crânio e a medicina da Capital se declarou impotente para salvá-la.

Devidamente medicada para resistir à viagem, Rosita voou, a jato, para São Paulo, onde lhe foi indicado um moderníssimo hospital infantil.

O proprietário, renomado cirurgião que vinha adquirindo fama em todo o sul do Brasil, havia estudado num colégio de Salvador, revelando-se, desde cedo, portador de esmerada educação e inteligência invulgar. Conquistou ele bolsas de estudo, fazendo cursos de aperfeiçoamento na Alemanha, nos Estados Unidos e, finalmente, na Suíça.

Consagrou-se, de corpo e alma, ao tratamento dos pequenos, ricos e pobres. Era assistido por dedicadas enfermeiras e abalizado corpo médico.

Tornara-se milionário muitas vezes, porém sua riqueza era mais das crianças que dele próprio.

O avião aterrou.

Rosita, ainda que preocupada com a menina, não afastava os olhos dos transeuntes apressados, no desejo ardente de descobrir alguém.

O automóvel chegou ao hospital e a criança foi levada, em estado de coma, para a sala de operações.

Era urgente a intervenção.

O médico estava de rosto vendado e somente seus olhos negros brilhavam nas duas pequenas aberturas.

Rosita esquecera tudo e agora fitava unicamente a criança.

O médico olhou Rosita e baixou a vista. Ali estava uma vida em perigo. Apenas perguntou: É sua filha? A senhora é casada?

"Não!" Foi a resposta de Rosita.

Os aparelhos foram-lhe sendo servidos à proporção que continuava nos trabalhos de operação.

Depois...

"Resta alguma esperança", declarou o cirurgião. Levem-na para o quarto.

A pequena foi conduzida e posta na cama. Todos se retiraram.

A menina estremeceu. A porta estava fechada.

Rosita abriu-a com precipitação, chocando-se com o médico que, mais precipitado ainda, empurrou Rosita para dentro do quarto.

"Marcos!"

"Rosita!"

Havia procurado Marcos em todas as circunstâncias e em todos os lugares. Nunca o esperara ali. Esquecera-se até de indagar o nome do cirurgião.

Realmente, estava ali o seu querido Marcos que, sem que ele nem Rosita soubessem, tivera os estudos custeados, em Salvador, pela viúva do sr. Jorge Lima.

Um abraço e um beijo, que foram a soma de todos os não realizados naquela longa ausência, abriram a porta de um futuro de felicidades, dedicado ao lar e à vida dos seus pequenos semelhantes.

Enquanto se abraçavam, a criancinha, no leito, abriu os olhos e sorriu.

Crato (CE), outubro de 1964

J. Siebra.