domingo, 23 de fevereiro de 2020

Vicência Garrido




Vicência Garrido

Letras e artes, muito ela ensinava
Atrás da catedral em que ela ora.
Na mesma casa velha onde ela mora
Foi professora santa, heroica e brava.

Recordo o tempo quando ali estudava
Cantarolando tal como era outrora.
Carta cantada é que bem se decora
E assim cantando sempre eu soletrava.

Crato menino lá todo passava
E nos banquinhos toscos se sentava,
Crato menino que envelhece agora.

A Deus por ela, com saudade, implora,
Vendo-a, velhinha, ir pra os céus embora.
Por mês, me lembro, dois mil reis cobrava.

J. Siebra

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Vicência dos Pobres





Via-a estendida, morta no caixão,
Na mesma sala pobre onde ensinou,
Onde os hinos da igreja ela ensaiou
Tanto em música como em cantochão.

Foi sempre de esmerada educação,
Mulher a quem o Crato muito amou,
O Crato pobre, sim, que a conservou
Como segunda mãe de coração.

O Crato pobre foi que ali entrou
E, de joelhos, ao seu redor chorou,
Ferindo-lhe a saudade e a emoção.

O rico, na calçada, ali passou
E, na sua porta, nem sequer parou
P’ra fita-la num olhar de compaixão.

-13.5.63- J. Siebra

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Dia Sete




José Siebra de Oliveira

Tambores e mais tambores,
Em nossas ruas asfaltadas,
Expressam bem os clamores
Das massas escravizadas.

São brados em estertores
Das classes espoliadas,
Famintas e desnudadas,
Em angústias e dissabores.

Que cada tambor gritante,
Sentindo do povo as dores,
Seja um grande autofalante,
Bem alto, sem ter temores.

Do tamanho do Brasil,
Despertando a nossa gente
E tornando-a consciente
Das maldades tantas, mil

Que assolam a nação,
Do capital estrangeiro
Que sugando o brasileiro,
Só causa consternação.

Vibra, tambor, endoidado,
Desperta do berço esplêndido
Este gigante gemendo,
Eternamente deitado.